Proteína animal associada a aumento da mortalidade por todas as causas

Definir o que representa uma dieta balanceada permanece uma questão aberta e uma alta prioridade em nutrição. Dietas ricas em proteínas e pobres em carboidratos tem sido promovidas para perda de peso e melhora da saúde. Entretanto, a quantidade e o tipo de proteína podem ter efeitos específicos como o aumento dos níveis do IGF-1 (fator de crescimento semelhante a insulina), e em uma perspectiva mais ampla, a escolha das fontes de proteína irá inevitavelmente influenciar outros componentes da dieta, incluindo macronutrientes, micronutrientes, e fitoquímicos, que podem ser determinantes para os resultados na saúde. Portanto, ter em conta as fontes de alimentos é fundamental para entender melhor o efeito sobre a saúde da ingestão de proteínas e refinar as recomendações dietéticas.

Em um grande estudo, publicado em 01 de agosto de 2016, pesquisadores dos EUA examinaram as associações entre o consumo de proteína animal e proteína vegetal com o risco de mortalidade. Foram analisados os dados de 2 grandes coortes norte-americanos com repetidas medidas das dietas e mais de 32 anos de seguimento. O estudo prospectivo teve 131.342 participantes, sendo 85.013 (64,7%) mulheres  do “Estudo das enfermeiras de Harvard” (Nurses’ Health Study- NHS) e 46.329 (35,3%)  homens do “Estudo do Seguimento dos Profissionais de Saúde” (The Health Professionals Follow-up Study- HPFS)

A pergunta levantada foi: qual a associação entre a fonte de proteína consumida e a mortalidade nos adultos norte-americanos?proteinas

Os achados do estudo foram: alto consumo de proteína animal foi positivamente associado com mortalidade, com o inverso sendo verdade para o alto consumo de proteína vegetal, especialmente entre indivíduos com ao menos um fator de risco no estilo de vida. Substituir proteína animal por proteína vegetal foi associado com menor mortalidade, sugerindo a importância da fonte proteica na saúde.

Cada participante respondia um questionário alimentar atualizado a cada 4 anos, no qual eles respondiam com que freqüência consumiam uma porção de tamanho padrão de cada alimento durante o ano anterior. O consumo de proteína animal e vegetal foi expresso como uma porcentagem do total de calorias consumidas. As principais fontes de proteína animal incluíam carne vermelha processada e não-processada, frango, laticínios, peixes e ovos. Principais fontes de proteína vegetal incluíam pães, cereais, macarrão, nozes e castanhas, feijões e legumes.

Foram documentadas 36.115 mortes, das quais 8.851 devido a doenças cardiovasculares, 13.159 devido a câncer e 14.105 devido a outras causas. A média do consumo de proteínas foi de 14% das calorias diárias para proteína animal e 4% das calorias diárias para proteína vegetal. A ingestão de proteína animal diminuiu, enquanto a ingestão de proteína vegetal aumentou ao longo do tempo durante o seguimento. healthy-lifestyle-facebookComparados com os participantes que consumiam menos de 10% das calorias diárias em proteína animal, aqueles que consumiam mais de 18% tinham peso maior, eram mais sedentários e consumiam mais gordura saturada e menos fibras e vegetais. Em contraste, aqueles com alta ingestão de vegetais tinham um estilo de vida mais saudável.

O aumento na mortalidade associado a alta ingestão de proteína animal foi mais pronunciado entre  os participantes obesos e aqueles com maior consumo de álcool. A associação de alta ingestão de proteína vegetal e baixa mortalidade foi mais forte entre os participantes fumantes, que consumiam mais álcool, estavam acima do peso ou obesos e sedentários.

Devido a maioria das associações estatisticamente significantes terem sido observadas entre os participantes com um estilo de vida não saudável, os pesquisadores dividiram 2 grupos: participantes com estilo de vida saudável e não-saudável. Assim sendo, observaram que os participantes do grupo estilo de vida saudável consumiam diferentes fontes de proteína animal quando comparados com o outro grupo. O grupo não-saudável consumia mais carne vermelha, carne processada, ovos e laticínios e consumia menos fibras, fruta, vegetais e grãos integrais.

diabetes-cureQuando estratificados por história de Diabetes, a associação positiva entre mortalidade por todas as causas e ingestão de proteína animal foi mais forte entre os participantes com diabetes, assim como a associação inversa com a proteína vegetal também. Por fim, a ingestão de carne vermelha processada foi fortemente associada com mortalidade. A redução no risco de morte foi de 34% quando 3% das calorias das carnes processadas foram substituídas por proteína vegetal, 12% quando carne vermelha foi substituída  e 19% quando ovos foram substituídos por proteína vegetal. As associações foram mais fortes para mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV), porém substituir ovos por proteína vegetal foi associado com um risco 17% menor de morte por câncer.

Depois de ajustado para outros fatores dietéticos e de estilo de vida, a proteína animal foi associada com aumento do risco de mortalidade, particularmente por doenças cardiovasculares, ao mesmo tempo que maior ingestão de proteína vegetal foi associado com menor mortalidade por todas as causas. Entretanto, na analise estratificada, essas associações foram particularmente importantes para os participantes com ao menos 1 fator de risco. Além disso, foi observado que a substituição de proteína animal por proteína vegetal foi associada a menor risco de mortalidade, especialmente quando substitui a carne vermelha processada.

Para realizar o estudo, os pesquisadores haviam analisado outros 2 estudos de coorte que examinaram consumo de proteína animal e proteína vegetal e sua relação com a mortalidade. No “Estudo da saúde das mulheres de Iowa” a substituição de proteína animal por proteína vegetal resultou em uma substancial menor mortalidade por DCV.  Em outro estudo, o “National Health ad Nutrition Examination Survey III” , alta ingestão de proteína foi relacionada com aumento na mortalidade por qualquer causa. Entretanto, quando a ingestão de proteína animal era controlada, a associação foi eliminada, sugerindo que a proteína animal era a responsável pelo efeito no aumento da mortalidade. Os dados de todos estes estudos juntos apoiam a importância da escolha da fonte de proteína para a saúde a longo prazo e sugerem que os vegetais constituem a fonte preferencial quando comparados com alimentos derivados de animais.

De fato, ao contrário da proteína animal, a proteína vegetal não tem sido associada com aumento nos níveis de IGF-1 (fator de crescimento semelhante a insulina) e tem sido ligada a menores níveis de pressão arterial, menores níveis plasmáticos de LDL e melhora na sensibilidade à insulina. Substituir proteína animal por vegetal tem sido relacionado a menor incidência de DCV e diabetes tipo 2. castanha-do-para-nozes-amendoa-e-castanha-de-cajuMais além, embora a alta ingestão de carne vermelha, especialmente a processada, tenha aumentado a mortalidade em uma meta-análise recente de 13 estudos de coorte, o alto consumo de nozes e castanhas (que são ricas em proteína) foi associado a menor mortalidade por DCV e por todas as causas. Estes resultados sugerem que outros componentes dos alimentos ricos em proteínas (como o sódio, os nitratos e os nitritos das carnes processadas) podem ter um efeito crítico na saúde a longo prazo.

O estudo encontrou que a associação de proteína animal e mortalidade varia conforme o estilo de vida, particularmente naqueles com ao menos 1 fator de risco como tabagismo, consumo de álcool, sobrepeso ou obesidade e sedentarismo. Tal fato pode ser explicado pela observação de que os efeitos adversos da proteína animal e os efeitos benéficos da proteína vegetal possam ser exacerbados por outras escolhas não saudáveis de estilo de vida e tornem-se evidentes entre o subgrupo de indivíduos com estes comportamentos, que podem já ter alguma condição inflamatória ou desordem metabólica.

A conclusão do estudo é que a proteína animal foi associada com mortalidade mais alta e maior ingestão de proteína vegetal foi associada com menor mortalidade, essas associações foram particularmente vistas naqueles participantes com ao menos 1 dos fatores de risco mencionados. Substituir proteína animal por proteína vegetal, especialmente de carne vermelha processada, pode conferir um beneficio substancial para a saúde a longo prazo. Assim sendo, as recomendações em saúde pública devem focar na melhora da escolha das fontes de proteínas.

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Fontes:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27479196

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23779232

1 Comentário

  1. Elizabete Salsa disse:

    Excelente matéria. Somente complementando. Laticinios estão ligados diretamente a cancer de mama e prostata.