A polêmica sobre o óleo de côco e o que precisamos saber

Semana passada foi publicado um artigo no Jornal da American Heart Association (Associação Americana do Coração) recomendando a substituição de gordura saturada por gordura mono e poliinsaturada. O que não é nenhuma novidade pois gorduras saturadas são encontradas em carnes e derivados de animais, enquanto que as insaturadas são as gorduras de origem vegetal. Ou seja, a mensagem da AHA é muito clara: evite as gorduras de origem animal e prefira os óleos vegetais. Acontece que o óleo de côco é uma gordura saturada e também entrou na história, causando uma grande polêmica pois muitas pessoas ainda o vêem como uma gordura “saudável”, o que, infelizmente, não é verdade.

Apesar de ser uma gordura vegetal, o perfil de ácidos graxos do óleo de coco é 82% saturado, cerca de metade é ácido láurico, e o restante mirístico, palmítico, esteárico e ácidos graxos de cadeia curta. Para efeitos sobre as Doenças Cardiovasculares (DCV), a comparação informativa é entre óleo de coco e óleos vegetais ricos em gorduras monoinsaturadas e poliinsaturadas. Um experimento cuidadosamente controlado comparou os efeitos do óleo de coco, manteiga e oleo de cártamo e tanto a manteiga quanto o óleo de coco aumentaram o colesterol LDL em comparação com óleo de cártamo, a manteiga mais do que o óleo de coco. 

Outro experimento cuidadosamente controlado descobriu que o óleo de coco aumentou o colesterol LDL em comparação com o azeite de oliva. Uma revisão sistemática recente encontrou 7 ensaios clínicos controlados, incluindo os 2 mencionados, que compararam óleo de coco com óleos monoinsaturados ou poliinsaturados. O óleo de coco aumentou o colesterol LDL em todos os 7 desses ensaios, significativamente em 6 deles. Os autores também observaram que os 7 ensaios não encontraram diferença na elevação do LDL entre o óleo de coco e outros óleos ricos em gordura saturada, como manteiga, carne ou óleo de palma.

Ensaios clínicos que compararam efeitos diretos do óleo de coco e de outros óleos da dieta sobre doenças cardiovasculares não foram relatados. Contudo, como o óleo de coco aumenta o colesterol LDL, uma causa de DCV, e não tem efeitos favoráveis ​​de compensação conhecidos, a AHA desaconselha o seu uso.

Aqui no Brasil, logo surgiram manchetes igualando o óleo de coco à manteiga e condenando o seu consumo, o que gerou diferentes reações por parte das pessoas, muitas acusando a indústria de estar querendo boicotar produtos veganos, outras defendendo o óleo de coco e insistindo que gordura saturada “faz bem”, etc. Felizmente, a questão não é sobre o mercado de produtos veganos e nem sobre a indústria de oleos vegetais e nem os cardiologistas estão errados.

Para entender a recomendação da AHA precisamos olhar para o contexto da dieta como um todo e não apenas para um único alimento. O recomendado para diminuição do risco de doenças é que as gorduras saturadas não ultrapassem 10% das calorias diárias da dieta, ou seja, no máximo 20g para mulheres e 30g para os homens. Quem come carnes, frango, peixe, ovos e laticínios e ainda cozinha com oleo de côco esta ultrapassando (e muito) esse limite diário pois uma colher de sopa (13ml) de oleo de côco contem aproximadamente 11g de gordura saturada. A AHA diz para evitar todas as gorduras saturadas e não especifica qual.

Quem é vegano ao deixar de consumir gordura de origem animal ja reduz significativamente a sua ingesta de gordura saturada, e consequentemente seu risco cardíaco também. Então, nesse caso, um consumo moderado de óleo de coco ainda estaria dentro do limite recomendado pela AHA (claro, se não for usar óleo de palma também), porém, seria necessário um estudo sobre o efeito do óleo de coco em veganos para podermos afirmar com certeza que o seu consumo não aumenta o risco de DCV.

Como conclusão, a minha recomendação como médica e também como vegana é cozinhar com azeite de oliva e deixar o óleo de coco para aquelas receitas em que este não poderia entrar, como doces, chocolates, etc.

Leia mais em : Aconselhamento da Presidência da American Heart Association: substitua a gordura animal pela gordura vegetal

2 Comentários

  1. Marcelo Portella Mitidieri disse:

    Então assista todos os vídeos do Dr. Lair Ribeiro sobre o óleo de coco. Mudará sua opinião sobre o óleo de coco.