Benefícios do chocolate amargo para a saúde do coração. Quais as evidências?

Tem coisa melhor que chocolate? E se ele ainda for benéfico para a saúde? Um estudo controlado, randomizado, robusto esta testando o efeito de um extrato concentrado de cacau e suplementos de multivitaminas na redução dos riscos de doença cardiovascular e câncer.

Cocoa Supplement and Multivitamin Outcomes Study (COSMOS), iniciado em 2015 e com duração prevista de 5 anos vai determinar se o extrato de cacau concentrado pode ajudar a reduzir doença cardíaca e se os suplementos de vitaminas comumente utilizados podem ajudar a reduzir o risco de câncer, particularmente em mulheres idosas. É preciso enfatizar que o suplemento de cacau estudado é um extrato altamente concentrado de flavonoides de cacau. Esse não é um estudo sobre comer chocolate!!

Vários benefícios para a saúde têm sido atribuídos ao chocolate; ou, mais especificamente, ao chocolate rico em flavonoides, principalmente para a hipertensão. Porém, é importante diferenciar entre cacau cru, cacau processado e chocolate. As sementes cruas obtidas da árvore Theobroma cacao são referidas como cacau cru e são ricas em uma subclasse de antioxidantes polifenóis conhecidas como flavonoides, especificamente os flavonoides catequina e epicatequina. Uma vez que essas sementes são processadas por moagem ou torrefação, o produto se torna o cacau processado. Maior processamento e adição de múltiplos ingredientes, incluindo açúcar e gordura, resultam no produto sólido que conhecemos como chocolate.

O uso medicinal do cacau processado tem uma longa história de quase 500 anos, quando Hernán Cortés encontrou pela primeira vez a bebida na Mesoamérica. Mesmo antes de Cortés, os Maias e Astecas usavam as sementes da árvore de cacau e produziam uma bebida chamada “xocoatl”. Lendas indígenas astecas relatam que as sementes de cacau eram trazidas do paraíso, e que sabedoria e poder surgiam por comer a fruta do cacaueiro.

Mais recentemente, os efeitos dos flavonoides vegetais em células de mamíferos atraíram interesse substancial, com atenção investigativa focada no potencial desses agentes para modular, e mesmo reverter, a doença cardiovascular e o câncer. Diversos estudos epidemiológicos desenhados para examinar o possível papel protetor dos flavonoides na doença cardiovascular relataram associações inversas – quanto mais flavonoides, menos doença.

O aumento do estresse oxidativo e a piora da biodisponibilidade do óxido nítrico são as principais características da disfunção vascular, e podem ser detectadas como o comportamento vascular anormal das coronárias em resposta a diversos estímulos dependentes do endotélio, incluindo acetilcolina ou teste de pressão a frio. Em pacientes com função vascular intacta, tanto a acetilcolina quanto o teste de pressão a frio induzem vasodilatação. Em contraste, pacientes com o endotélio disfuncional apresentam uma vasoconstrição paradoxal, o que os coloca em risco aumentado de eventos cardiovasculares. Um achado de destaque que mostrou a importância dos flavonoides do cacau processado na doença cardiovascular foi a descoberta de que os flavonoides ativam a óxido nítrico sintase em humanos.

Essas considerações focaram atenção nos potenciais efeitos salutares dos flavonoides vegetais. Estudos epidemiológicos sugeriram um possível papel protetor dos flavonoides na doença cardiovascular. O cacau processado é a fonte mais rica de flavonoides, embora o processamento atual do cacau reduza substancialmente o seu conteúdo.

Estudos nos ameríndios Kuna

Um passo intrigante em direção ao delineamento do efeito potencial dos flavonoides na saúde e na doença cardiovascular deriva de estudos interessantes conduzidos nos índios Kuna (ameríndios). Os ameríndios Kuna, do Panamá, são conhecidos por ter baixa pressão arterial e por manifestar apenas um aumento discreto na pressão arterial quando envelhecem.

Essa curiosa ausência de hipertensão foi documentada primeiramente por Kean há quase 70 anos. Kean era um médico oficial do exército dos Estados Unidos, designado para a Zona do Canal no Panamá, onde muitos ameríndios Kuna trabalhavam. Kean ficou intrigado pelos baixos níveis de pressão arterial dos Kuna. Uma questão óbvia era se ausência de hipertensão era atribuível a genes protetores ou fatores ambientais. Vinte anos atrás, Hollenberg e colaboradores iniciaram um estudo abrangente dos ameríndios Kuna que forneceu a ligação que faltava para a observação clínica de Kean.

Vale a pena relembrar uma breve história de como os Kuna se estabeleceram no arquipélago de San Blas. Estas ilhas se localizam na costa caribenha do Panamá. Esse arquipélago tem sido lar dos Kuna desde os tempos dos conquistadores espanhóis. O Império Espanhol alcançou seu pico de poder político e econômico sob o governo dos Habsburgos durante os séculos 16, 17 e 18. Durante o período, os espanhóis roubaram toneladas de ouro e prata dos nativos incas, onde hoje estão o Chile e o Peru, levando a preciosa carga para a Espanha. Como o Chile e o Peru estão no lado do Pacífico das Américas, e a Espanha no lado Atlântico, os Kuna eram obrigados pelos espanhóis a carregar ouro e prata pelo Istmo do Panamá.

A taxa de mortalidade era muito alta entre os Kuna, então alguns grupos atravessaram a densa floresta e escaparam para as Ilhas de San Blas. A dieta deles lá incluía um consumo significativo de cacau processado líquido, produzido a partir do cacau cru local, contribuindo com cerca de 1.000 mg/dia de flavonoides. Consequentemente, os Kuna provavelmente tinham a dieta mais rica em flavonoides do que qualquer população existente.

Flavonoides e mortalidade

Em 2007, Hollenberg e colaboradores da University of Panama School of Medicine conduziram um estudo observacional para avaliar se o consumo de flavonoides estava associado a mortalidade. Esses pesquisadores analisaram o diagnóstico na certidão de óbito para comparar taxas de mortalidade por causa específica de 2000 a 2004 no Panamá continental e nas Ilhas de San Blas, onde viviam apenas ameríndios Kuna. A hipótese era de que se o consumo elevado de flavonoides e a consequente ativação do sistema do óxido nítrico eram importantes na mediação da redução da hipertensão e eventos cardiovasculares, o resultado seria uma redução discernível na frequência de doença cardíaca isquêmica, acidente vascular encefálico, diabetes e câncer – todos processos sensíveis ao óxido nítrico.

Os pesquisadores relataram que, no Panamá continental, a doença cardiovascular era a principal causa de mortalidade (83,4/100.000), seguida pelo câncer (68,4). Em contraste, as taxas nas ilhas habitadas pelos Kuna eram dramaticamente menores (9,2 para doença cardiovascular e 4,4 para câncer). De forma similar, as mortes por diabetes eram muito mais comuns em terra (24,1/100.000) do que nas ilhas de San Blas (6,6).

Os pesquisadores sugeriram que esses níveis menores de risco comparativamente entre os Kunas em San Blas poderiam estar relacionados ao consumo muito elevado de flavonoides e a ativação sustentada da síntese de óxido nítrico. No entanto, como esse foi um estudo observacional, e como muitos fatores de risco podem afetar a hipertensão, o estudo não forneceu evidências definitivas de uma ligação.

Flavonoides do cacau, óxido nítrico e saúde cardiovascular

Finalmente, amostras de urina de Kunas vivendo nas ilhas e daqueles no continente demonstraram uma correlação estatisticamente significativa entre o consumo crônico de flavonoides do cacau processado e excreção urinária elevada de metabólitos de ácido nítrico. Em resumo, essas observações demonstram que, em humanos, a ingestão do flavonoide epicatequina está ligada, ao menos em parte, aos efeitos vasculares observados após o consumo de cacau processado rico em flavonoides.

Chocolate, cacau processado e pressão sanguínea

Determinar o papel do chocolate na hipertensão deveria ser simples como alimentar as pessoas com chocolate e medir a pressão arterial delas, mas diversas variáveis relevantes devem ser consideradas. O que está sendo administrado, chocolate ou cacau processado? Qual é o conteúdo de flavonoides do cacau (ou chocolate), e qual dose está sendo empregada? Os participantes do estudo são jovens ou idosos, hipertensos ou normotensos? Por quanto tempo o cacau processado ou chocolate é administrado? Qual é o controle? Enquanto Hollenberg e Fisher usaram o cacau processado pobre em flavonoides como controle, outros pesquisadores administraram uma mistura simulada ou chocolate branco para aqueles no braço controle, resultando na falta de administração duplo-cega e um efeito placebo confundidor.

Talvez por conta de muitas diferenças no desenho de estudo, o efeito do cacau processado na pressão sanguínea permanece definido de forma incompleta. Fisher e colaboradores não encontraram relação entre pressão arterial e alta dose de cacau rico em flavonoides de forma ambígua em sujeitos saudáveis normotensos estudados por menos de uma semana. Em contraste, uma meta-análise descobriu que tanto o cacau processado quanto o chocolate induziram uma queda nas pressões arteriais sistólica e diastólica em pacientes idosos com hipertensão. De forma semelhante, Taubert e colaboradores demonstraram uma redução significativa na pressão arterial com uma porção pequena de um quadrado de chocolate por dia em pacientes com pressão normal alta ou hipertensão leve. No estudo Zutphen Elderly Study, o consumo de cacau processado foi inversamente relacionado à pressão arterial em 470 homens idosos.

As propriedades antioxidantes do chocolate amargo

O chocolate amargo contém níveis elevados de flavonoides, que têm propriedades antioxidantes, e evidências emergentes sugerem um potencial benefício de uma variedade de alimentos e bebidas ricos em flavonoides em eventos cardiovasculares. Em um ensaio clínico duplo-cego, randomizado, placebo controlado em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, Flammer e colaboradores compararam efeito do chocolate rico em flavonoides comercialmente disponível com o chocolate controle livre de licor de cacau na função endotelial e das plaquetas. Eles demonstraram que o chocolate rico em flavonoides melhora agudamente a função vascular e inibe a função plaquetária em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva.

Ding e colaboradores revisaram a amplitude dos mecanismos potenciais pelos quais os flavonoides e o cacau teriam benefício na saúde cardiovascular. Os mecanismos propostos incluem ativação do óxido nítrico e efeitos antioxidantes, antiinflamatórios e antiplaquetários, o que pode melhorar a função endotelial, os níveis de lipídios, a pressão arterial e a resistência insulínica.

Conclusão

Durante o processo convencional de fabricação do chocolate a partir das sementes frescas de cacau até o produto final, a concentração de flavonoides reduz de forma importante. Além disso, o termo “chocolate amargo” é mal compreendido, pois o sabor do chocolate não indica o conteúdo de flavonoides. A fermentação e a torrefação têm um impacto negativo no conteúdo de flavonoides dos alimentos. Ainda, a concentração de flavonoides pode depender da origem do cacau cru. O chocolate ao leite tem o menor conteúdo de flavonoides comparado com o cacau em pó e o chocolate amargo.

Muitas linhas de evidências sugerem que o chocolate rico em flavonoides possa conferir benefícios cardiovasculares, incluindo redução da pressão sanguínea, melhora na sensibilidade à insulina e possivelmente redução do risco de insuficiência cardíaca congestiva. Porém, a carga altamente calórica do chocolate comercialmente disponível (cerca de 500 kcal/100g) pode causar ganho de peso, o que é por si só um fator de risco para hipertensão, dislipidemia e diabetes.

Assim sendo, enquanto aguarda-se o resultado do estudo COSMOS, é possível acreditar que o chocolate faça bem, na forma de chocolate amargo e consumido moderadamente, mas, infelizmente, ainda não existem provas de que tenha benefícios medicinais. 

 

Fonte: Chocolate para saúde cardiovascular: quais as evidências?

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