A ascensão da Cultura Vegana

DISTANTES são os dias de Annie Hall, quando Woody Allen aceitou resignado um prato de brotos de alfafa e purê de levedura. Ao longo dos anos, o comer vegano passou de insípido a algo na moda. Um sinal dos tempos: em 2016, a Tyson Foods, a maior processadora de carne dos Estados Unidos, comprou uma participação de 5% na empresa produtora de proteína vegetal Beyond Meat (o produto mais conhecido da empresa, o Beyond Burger, é cor-de-rosa com extratos de beterraba e supostamente chia quando é grelhado.) Nao mais restrito a hippies ou radicais, o veganismo, hoje em dia, mantém companhias mais diversificadas e mais glamurosas: os corpos famosos pertencentes a Tom Brady e Beyoncé foram alimentados por dietas veganas.

A estudante de pós-graduação de sociologia Nina Gheihman está pesquisando aspectos sociais da propagação do veganismo. O veganismo estava inicialmente intimamente ligado à ideologia do movimento dos direitos dos animais, ela explica, que inicialmente visava uma série de alvos, como usar peles e testar produtos em animais. Uma vez que os ativistas mudaram o foco para as condições da fazenda e os alimentos, o veganismo assumiu as características do que os estudiosos chamam de “movimento de estilo de vida”. Ao longo do tempo, ele se aproxima mais de preocupações ambientais gerais e de uma mentalidade “saudável”, vinculada a noções de aperfeiçoamento do corpo. Os números confiáveis ​​sobre a quantidade de pessoas que se identificam como veganos são difíceis de encontrar, diz Nina Gheihman, mas um número crescente pratica o veganismo de alguma forma: seja incorporando substitutos de carne e produtos lácteos em suas refeições ou restringindo suas dietas em determinados momentos do dia ou por um período de semanas.

Cientistas sociais têm estudado o veganismo em relação ao ativismo dos direitos dos animais, mas tem havido menos pesquisas sobre o atual estilo de vida do movimento, seus mecanismos e estrutura. Nina Gheihman está especialmente interessada em analisar figuras importantes, as quais ela provisoriamente chama de “defensores do estilo de vida”, argumentando que eles mudaram a natureza do ativismo. Eles geralmente vêm de campos que normalmente não são associados ao ativismo, diz ela, especialmente o empreendedorismo – e o “trabalho cultural” que eles fazem não é definido estritamente por suas ocupações oficiais. Este trabalho expandiu o veganismo para além do seu núcleo ideológico, permitindo que uma maior variedade de pessoas possa participar, mesmo que elas não cumpram com todos os aspectos e princípios em suas vidas.

Nina Gheihman classifica esses jogadores em três categorias. Alguns defensores do estilo de vida criam oportunidades para o consumo – por exemplo, iniciando um serviço de assinatura de comida vegetariana/vegana, abrindo um restaurante ou armazenando proteínas vegetais em suas mercearias. Outro grupo trabalha no que ela chama de “produção de conhecimento”, criando recursos educacionais – filmes, livros e posts de blogs – que as pessoas fazem circular para compartilhar dicas e conselhos culinários, ou persuadir os outros a mudar suas dietas. Terceiro e mais abstrato, é o tipo de defesa envolvida no que ela chama de “produção de significado” ou “trabalho interpretativo”. Essas figuras mudam as associações culturais do veganismo: “a essência simbólica do que o veganismo significa”, como Nina diz. O jogador Tom Brady é um caso impressionante: emprestando seu nome a uma linha de kits de refeições da start-up vegana Purple Carrot, ele liga o veganismo com a figura física de “macho” do futebol profissional (como por exemplo o kit: “TB12 Refeições de Desempenho” que afirma ajudar “atletas e indivíduos ativos a permanecer no auge” e “maximizar seu desempenho no campo de jogo” por 78 dólares por semana).

A pesquisadora planeja realizar pesquisas de campo e entrevistas para examinar a evolução do veganismo em outros dois contextos nacionais. A primeira é a França, “o lugar óbvio para estudar um movimento de alimentos, onde se faz central a noção de comida boa, ou comida adequada“. A culinária do país pode parecer hostil ao queijo de caju ou à agua de grão-de-bico (“aquafaba”) como um substituto do ovo, mas a estrutura hierárquica da sua cultura alimentar pode abrir caminho para mudanças dramáticas. Nos últimos anos, os chefs da alta gastronomia, que atendem a uma clientela internacional de ponta, tiveram que fazer experimentos com menus veganos e pastelaria. A influência foi ampliada por uma rede de blogs de alimentos veganos e escritores de livros de receitas – mesmo quando outras instituições resistem à propagação desse estilo de vida, como é o caso do ministério da saúde francês.

O segundo caso é Israel, onde por algumas estimativas, cerca de 5% da população é vegana; Tel Aviv ganhou uma reputação como uma das capitais veganas do mundo. A Força de Defesa israelense até oferece menus sem derivados de animais nos refeitórios e botas e capacetes sem couro para soldados veganos. Mais além dos números, Israel fornece um interessante exemplo contrastante, explica Gheihman, em parte porque o veganismo permanece firmemente enraizado em preocupações com os direitos dos animais e é praticado em todo o espectro político e religioso. Ela também está interessada em como o estilo de vida vegano evoluiu dentro do contexto cultural de Israel, apoiado pelo simbolismo nacional em torno do uso da terra e da água, e formado pelas tradições agrícolas do país e pela dieta mediterrânea.

O próprio estilo de vida vegano de Nina, entretanto, atinge muito além do raio do seu prato individual. Ela está envolvida com o Conselho para a Sustentabilidade, a Harvard Vegan Society, a Ivy League Vegan Conference e o Boston Plant-Based Millennials, que hospeda jantares mensais. “Há um neste domingo, na verdade”, ela acrescenta, não de forma casual.

Fonte: The Rise of Vegan Culture

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